terça-feira, 8 de novembro de 2016

O efeito Trump

A poucas horas da abertura das urnas nos EUA, vejo muita gente preocupada com a possível eleição de Donald Trump. Sejamos claros: Trump é comprovadamente burlão (entre outros, Trump University). É igualmente um empresário falhado, que tem aproveitado para enriquecer às custas dos donativos que lhe são dados para a campanha, arrendando a si próprio, a preços ultrajantes, escritórios e quartos nos seu hoteis, nos seus resorts e na Trump Tower. É igualmente um personagem que tem sobrevivido apelando ao minimo denominador comum da humanidade: o sexismo, o racismo, o egoísmo ou a intolerância. Todavia, ganhe ou perca, Trump, tal como o Brexit, marcarão o debate público durante muitos anos, sendo o sintoma de uma doença profunda dos países desenvolvidos: a doença da ignorância, agora orgulhosamente desavergonhada, causada por décadas de desinvestimento na educação, consequência do neo-liberalismo que tem deixado para trás largas percentagens da população nos EUA e na União Europeia, que, apesar de se encontrar em estado mais avançado nos EUA e na Grã-Bretanha, atinge todo o mundo. Desengane-se quem respirar de alivio se Trump perder. Trump pode perder, mas irá sempre perder com perto de 50% dos votos, o que dificilmente se poderá considerar uma derrota para quem, como eu, adoptar uma perspectiva mais cautelosa. Trump poderá ser derrotado, mas os seus eleitores continuarão por aí. A sua base de apoio, assente sobretudo em brancos de baixa instrução e evangélicos, ficará à espera do próximo aspirante a Hitler para colocar as culpas dos seus falhanços pessoais nos negros, nos muçulmanos, nos judeus, nos latinos, nos japoneses ou nos alemães, e destilará o seu ódio colocando no poder alguém que, em vez de os educar, vai dar sustento aos seus ódios e fazer deles lei. Até lá, os EUA, como a UE, irão viver em clima de pré guerra civil. A história mostra que as democracias nunca conseguiram sobreviver às ressacas de crises provocadas pelo liberalismo. A história mostra que nunca os moderados conseguiram manter os extremistas afastados do poder durante muito tempo, a partir do momento em que estes se tornaram forças politicas relevantes. Será que a história vai ser diferente desta vez?

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